O cinema brasileiro tem capítulos que se perdem no tempo, e a história da Veracruz, estúdio pioneiro no ABC Paulista, é um deles. Mais do que filmes, a Veracruz guarda a memória de uma cidade, de seus trabalhadores e de uma indústria que antecedeu até mesmo a indústria automobilística local.
A Indústria do Cinema e o Trabalhador Esquecido
Enquanto a história oficial muitas vezes celebra estrelas, diretores e astros, o papel do trabalhador — técnicos, operários, adestradores de animais — permanece pouco reconhecido. Em São Bernardo do Campo, o surgimento da cidade e sua potência industrial estão intimamente ligados a esses profissionais, cujo protagonismo é raramente contado.
“Quem fez, a mão de obra, o técnico, o operário, simplesmente você desconhece tudo isso. Essa é a integração que eu acho importante”, comenta um especialista em memória cultural.
O Legado Perdido da Veracruz
A Veracruz produziu apenas 18 filmes, mas deixou um acervo rico em figurinos, fotografias, cartazes e registros detalhados dos artistas que passaram pelo estúdio. Parte desse material foi saqueada ou abandonada após o fechamento da empresa. Um dos responsáveis por preservar o que restou foi Martinelli, funcionário do estúdio e adestrador de cães — animais que se tornaram astros em várias produções.
Localizado em um galpão em São Bernardo, Martinelli reuniu fotos, fichas de artistas e restos de filmes, garantindo que uma parte significativa desse patrimônio histórico não se perdesse totalmente. Mesmo assim, estima-se que apenas 10% do material original tenha sobrevivido.
Resgate e Preservação: A História nas Mãos da Juventude
Nos anos 1980 e 1990, um movimento de preservação cultural começou a tomar forma no ABC Paulista, em sintonia com a redemocratização do Brasil e a criação da nova Constituição, que valorizava a memória histórica. Além do trabalho acadêmico, iniciativas populares surgiram, como a mobilização para salvar o Cine Teatro Carlos Gomes, em Santo André, que recebeu mais de 23 mil assinaturas para sua preservação.
Hoje, a memória da Veracruz e do ABC ganha novo fôlego. Escolas de cinema em Santo André e São Bernardo incluem em seus currículos o estudo do estúdio, enquanto festivais de cinema locais utilizam os espaços originais da Veracruz, resgatando sua importância para o audiovisual e a cidade.
O Papel das Universidades e a Consciência da Memória
As universidades, como a Federal do ABC, desempenham papel fundamental nesse processo, oferecendo metodologias de pesquisa e espaço para reescrever a história do trabalhador e da indústria local. Essa nova geração de pesquisadores e cineastas é encarregada de continuar o resgate, ampliando a compreensão da cidade e do país.
“Um país que não tem memória não conhece o passado e não vai conhecer o futuro. Ele não tem como analisar a realidade”, lembra um historiador da região, reforçando a importância da preservação cultural e da valorização do trabalhador.
Entre Cinema, Política e Preconceito
O resgate da memória também revela tensões sociais. A valorização do trabalhador, seja em filmes ou em desfiles de escolas de samba, ainda provoca debates e preconceitos. Esse contraste evidencia a importância de recuperar não apenas objetos e acervos, mas a própria narrativa da classe trabalhadora no ABC Paulista.
O legado da Veracruz mostra que memória e história estão sempre em disputa, e cabe às novas gerações preservar, valorizar e transformar esses registros em conhecimento e identidade para a cidade.
Leia também: Vai-Vai leva cinema e memória de São Bernardo do Campo para a avenida